Carência Afetiva: Diálogo entre Psicanálise e Teologia
Apego, Carência e Fé:
O que diz a teoria do apego sobre a carência afetiva?
A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e ampliada por Donald Winnicott, explica que a carência afetiva surge quando os vínculos precoces com cuidadores são insuficientes, inconsistentes ou ausentes. Isso gera um "modelo interno de relacionamento" que influencia como a pessoa se conecta com os outros ao longo da vida — podendo levar a comportamentos como busca compulsiva de aprovação, dificuldade em confiar ou isolamento emocional.
Como destaca a pesquisadora M. C. Herrador Tordecillas em seu estudo sobre o Caso G de Winnicott, a carência não é apenas uma falta de afeto, mas uma ruptura na capacidade de construir laços saudáveis, pois o indivíduo não aprendeu a reconhecer e expressar suas necessidades emocionais.
Como a fé religiosa se relaciona com esses vínculos?
Da perspectiva teológica, o vínculo com Deus é visto como um "apego seguro" que pode reparar danos causados pela carência afetiva. O estudo de J. K. Gardner (Attachment, Trauma, and Intimacy with God) mostra que pessoas que experimentaram carência podem encontrar no relacionamento com o divino um espaço de aceitação incondicional, semelhante ao que um cuidador seguro proporcionaria.
Por exemplo, a Bíblia frequentemente utiliza metáforas de vínculo — Deus como "Pai", "Mãe" ou "Noivo" — que ressoam com as necessidades de conexão humana. O devocional de D. Nascimento reforça que esse vínculo não substitui as relações humanas, mas as enriquece, pois permite que a pessoa dê e receba amor sem depender dele para sua identidade.
Por outro lado, a teologia também alerta para riscos: quando a fé é usada como uma forma de fugir da dor da carência (em vez de enfrentá-la), pode se tornar um "apego inseguro" — como no fanatismo, onde Deus é visto como uma fonte de poder ou validação egoísta, como mencionam R. e C. Cardoso em seu artigo sobre relações saudáveis.
Ponto de encontro entre as duas visões
Tanto a psicanálise quanto a teologia concordam que a carência afetiva não é um "defeito", mas uma experiência humana que pode gerar crescimento:
- A psicanálise busca que o indivíduo reconheça seus padrões de vínculo e se reconstrua através do autoconhecimento.
- A teologia busca que essa reconstrução inclua um vínculo
com o divino, ampliando a perspectiva do amor para além do humano.


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