Meu Senhor e meu Deus!
(João 20,19-31)
Após a morte de Jesus, os discípulos vivem um dos
momentos mais dolorosos de suas vidas. Estão feridos, confusos e tomados pelo
medo. As promessas parecem distantes, e a esperança parece sufocada pela dor.
Trancados no cenáculo, deixam-se envolver pelo luto e pela insegurança, quando
já deveriam recordar as palavras do Mestre sobre a ressurreição. A tristeza,
naquele momento, fala mais alto que a fé.
Mas o amor de Deus sempre encontra um caminho para
entrar onde o coração humano se fechou. As portas estão trancadas, porém isso
não impede a presença de Jesus. Ele entra no cenáculo e se coloca no meio
deles. Onde havia medo, Ele leva paz. Onde havia confusão, Ele traz sentido.
Onde havia tristeza, Ele reacende a esperança.
O Ressuscitado mostra as mãos e o lado ferido. As
chagas não são sinais de derrota, mas marcas glorificadas do amor levado até o
fim. Jesus permanece o mesmo que foi crucificado, mas agora venceu a morte. Ao
mostrar suas feridas, revela aos discípulos que a cruz não foi o fim, mas o
caminho para a vitória. O sofrimento não teve a última palavra.
O medo continua sendo uma das maiores prisões da
vida espiritual. Ele paralisa, limita e impede o crescimento interior. Por
isso, Jesus não apenas aparece, mas comunica a paz: “A paz esteja convosco.”
A paz de Cristo não é ausência de problemas, mas a certeza de que Deus
permanece presente mesmo em meio às tempestades.
Muitas vezes acontece o mesmo conosco. Escutamos
testemunhos, falamos de Deus, participamos da comunidade, mas em determinadas
situações escolhemos permanecer no luto da raiva, da discórdia, do orgulho e do
desamor. A ressurreição corre o risco de se tornar apenas uma lembrança
religiosa, e não uma força viva capaz de transformar a existência.
É nesse contexto que aparece Tomé. Ele não estava
presente quando Jesus veio pela primeira vez. Ao retornar, encontra os
discípulos transformados pela alegria e escuta o anúncio: “Vimos o Senhor!”
Sua reação, porém, não é muito diferente da deles antes da aparição de Cristo.
Tomé deseja ver e tocar as marcas da paixão. Ele pede os mesmos sinais que os
outros receberam. Antes de julgá-lo, é preciso lembrar que os demais discípulos
também precisaram ver para crer.
Oito dias depois, Jesus volta. Mais uma vez entra
no cenáculo e dirige-se diretamente a Tomé. Não o humilha, não o rejeita, não o
expõe diante dos outros. Cristo conhece suas dúvidas e vai ao encontro delas
com misericórdia. A pedagogia de Deus não destrói quem vacila; ela cura,
levanta e conduz à fé madura.
Diante de Jesus vivo, Tomé não precisa tocar nas
feridas. Basta-lhe a presença do Ressuscitado. Então brota uma das maiores
confissões de fé de toda a Escritura: “Meu Senhor e meu Deus!” Tomé
reconhece que diante dele não está apenas um mestre, nem apenas um amigo
recuperado da morte, mas o próprio Deus feito homem.
Quando Jesus diz: “Porque me viste, creste?
Felizes os que creram sem terem visto!”, não está apenas repreendendo Tomé,
mas abrindo um horizonte para todos os que viriam depois. Essa palavra alcança
cada cristão de todos os tempos. Nós não vimos com os olhos físicos, mas somos
chamados a reconhecer Cristo pela fé, na Palavra, nos sacramentos, na
comunidade e nos sinais diários de sua graça.
Se a Palavra de Deus ainda não transformou o seu
coração, se você ainda vive aprisionado pela raiva, pelo ciúme, pela mágoa ou
por sentimentos destrutivos, talvez seja hora de fazer silêncio interior e
rezar com sinceridade. Peça como Tomé, não por curiosidade, mas por desejo de
conversão:
Senhor, eu quero te ver.
Quero reconhecer tua presença.
Quero que minha vida seja transformada.
Quero unir, e não separar.
Quero amar, e não ferir.
Quero crer, e não viver fechado no medo.
Então, quando o coração se abrir, você também
poderá dizer com verdade:
Meu Senhor e meu Deus!


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